Da realização dos sonhos e a felicidade

Eu contei aqui que estava começando a ler Anna Karenina e como estou apaixonada/viciada no livro. Não consigo deixá-lo de lado, é um desses livros que trata de todos os aspectos da vida, que você se vê um pouco em cada um dos personagens, em cada uma das suas características – nas suas relações com o amor, com a vida, com a vida com os outros, com a felicidade. É um caso de amor mesmo. Mas ontem tive uma revelação na minha leitura.

Ao falar de um personagem (não quero estragar nada aqui para ninguém!), ele diz sobre o “eterno engano cometido pelas pessoas que imaginam alcançar a felicidade por meio da realização dos desejos“. Foi como um soco no estômago – afinal, quem nunca se colocou nessa situação? De adiar a felicidade, para quando eu for casada, ou quando conseguir aquele emprego, ou quando tiver filhos? Ela está sempre ali, perto, mas inalcançável – até porque quando chegamos lá, aquilo dura pouco, e então a felicidade vai logo para o próximo sonho, o próximo desejo: quando eu for promovida, quando meus filhos me deixarem dormir uma noite inteira, quando eu virar chefe, e assim por diante.

O problema é que a realização dos nossos desejos não é uma chave mágica para resolver nossa vida – todas as outras frustrações continuam lá, os medos, os problemas. E depositar todas as suas esperanças em uma solução mágica (e fácil) não costuma funcionar tão fácil assim. Fora que não existe nenhuma situação perfeita: toda promoção costuma vir acompanhada de mais desafios e responsabilidades, mais noites sem dormir e mais medos, novas frustrações.

Então pare de deixar a felicidade sempre para depois, porque não é assim que funciona. Felicidade é algo perene, que não depende de uma grande novidade para acontecer. As alegrias sim, vêm rápido, são efêmeras, e muitas, se você tiver sorte – tanto que podemos contá-las no plural. Agora a felicidade é uma só, e depende mais de você saber encontrá-la na sua vida do que dos outros. É saber deixar a expectativa de lado e aproveitar o que se tem. Porque felicidade é no presente, e não no futuro.

Felicidade Aristóteles

Repensando a expectativa

Sempre falo aqui neste blog do problema da expectativa e como eu mesma tento lidar com isso. É um dos temas que eu mais discuto na análise, como lidar com toda a minha expectativa. Mas acabei de assistir uma palestra do TED que me fez repensar alguns conceitos…

A tese de Tali Sharot é de que nascemos inclinados a sermos otimistas, mesmo quando não temos motivos para isso, e que a solução de reduzir a expectativa para ser mais feliz é equivocada. Ela traz alguns motivos para isso. Primeiro, pessoas com altas expectativas tendem a se sentir melhor com o resultado dos eventos, sejam eles positivos (uma promoção) ou negativos (uma demissão), porque a maneira que sentimos depende de como interpretamos o que acontece conosco. Quem tem expectativas mais altas tende a creditar seus sucessos a seus próprios esforços e a acreditar que seus fracassos decorrem de azar ou de forças externas. Não é culpa delas. Já quem tem baixa expectativa acredita no oposto.

Depois, independentemente do resultado, a pura expectativa do resultado nos deixa felizes. Isso fica claro na preferência generalizada que temos de sexta-feira sobre domingo. Sexta é expectativa do fim de semana, domingo é de uma semana de trabalho. Por fim, ela acredita ainda que o otimismo tem a capacidade de mudar a realidade, como uma profecia auto-realizável. Quando acreditamos que algo pode acontecer, tentamos mais, nos esforçamos mais.

Mas isso é só uma parte da palestra dela. Vale muito assistir!

Como evitar arrependimentos

Quem nunca teve uma roupa que gostasse tanto que não tinha vontade de usar, só para não gastar? É aquela situação: você está se vestindo, pega aquele vestido ou calça ou terno em questão, mas fica inseguro, pois pode haver um programa mais importante, mais especial, que realmente peça aquela roupa. Mas essas ocasiões nem sempre surgem, e aquela blusa que você ama acaba ficando esquecida no armário, até que chega o inverno e não dá mais para vestir. Quem nunca?

Mas quantas vezes a gente não faz isso com a vida? O medo de usar e gastar, de desgastar relações, ideias, projetos, sonhos ou dinheiro, até que quando vamos ver, o tempo passou e aquilo tudo não faz mais sentido. A famosa história do fulano que economizou a vida inteira porque queria ter um tanto de dinheiro e quando morreu, ele havia chegado lá, mas nunca tinha feito nada para aproveitar tudo aquilo. Eu conheço um caso assim, essas coisas acontecem de verdade. Com medo de gastar, ficamos paralisados e a vida passa.

E então tem outro medo, o medo de envelhecer e chegarmos lá cheios de arrependimentos do que não fizemos, do que não tentamos, não arriscamos. Esse me aterroriza. Outro dia vi um post em um blog de uma enfermeira que trabalhava com pacientes que já não tinham mais salvação. Ela contou os cinco principais arrependimentos que eles tinham:

  • Eu queria ter tido a coragem de viver uma vida honesta comigo, e não a vida que os outros esperavam de mim.
  • Eu queria não ter trabalhado tanto.
  • Eu queria ter tido a coragem de expressar os meus sentimentos.
  • Eu queria ter ficado em contato com meus amigos.
  • Eu queria ter me deixado ser mais feliz.

Nem preciso falar o quanto essa lista mexeu comigo. Porque é algo real, porque consegui imaginar sentir todos aqueles arrependimentos, e não queria chegar lá. Ela fala das expectativas que os outros têm de nós e como lidamos com isso, das expectativas que temos de nós mesmos, das pessoas que a gente ama, da busca da felicidade que a gente consegue sempre deixar para amanhã, porque hoje preciso pagar essa conta, ir naquela reunião, fazer serão no escritório.

Mas então, como a gente faz? Acho que é um dia de cada vez. Se você não gosta do seu emprego, vá atrás dos seus sonhos, e se você não sabe qual é o seu sonho, tente encontrá-lo. Se você sente falta dos seus amigos, é só ligar e marcar. A vida vai às vezes se impõe, mas a gente pode fazer um esforço para estar sempre junto de quem a gente ama. E assim por diante. O autor dessa imagem fez uma resposta para aqueles cinco arrependimentos. Achei incrível. Para fazer tudo isso, é só começar. Quando você vai tentar?

Da arte de ser realista

Hoje me dei conta de que me tornei uma pessoa muito mais realista depois que fiz uma reforma. Estou fazendo, na verdade, minha obra está terminando. Mas isso é o que eu venho me dizendo há meses, então passei a ter uma outra relação com a minha crença em prazos e coisas assim. Na verdade, é bom isso, acho que faz parte de amadurecer. Mas simplesmente não consigo acreditar em mais ninguém que me diz que termina de pintar tudo em uma semana ou que vai entregar os eletrodomésticos no dia tal, previamente combinado.

Não é questão de ter ou não ter palavra. Muita gente tem, e tem gente que não tem, faz parte. Mas descobri que preciso me acostumar com todos os outros fatores que entram no meio do caminho: a vida, o trânsito, os atrasos, os imprevistos, as confusões, os enganos, e assim por diante. Tem também tudo isso, e estou percebendo que esperar só a perfeição de todos os outros é irreal. Parece óbvio, mas não é. E perceber é só um passo. Colocar isso em prática é muito, mas muito mais difícil.

Porque a gente conta com os outros. Marca um compromisso e espera que eles estejam lá conosco quando o dia chegar. Mas e se cai uma árvore na saída da garagem e o caminhão de entrega simplesmente não consegue sair? E se a pessoa se confundiu e marcou para o dia seguinte? E se ele simplesmente se esqueceu? Como faz então? Encomenda o sofá e quer que ele esteja lá na sua sala no dia combinado, mas isso vale para tudo: no emprego novo que começa de um jeito meio errado, no voo que é cancelado, até em um restaurante que esquecem de fazer a reserva no aniversário da sua mãe. Acontece, ou como meu pai sempre diz: shit happens.

E aí? Como é que você lida então? Tem toda aquela história da expectativa, mas só de falar isso me revira o estômago, porque se eu não posso contar com uma passagem marcada, uma reserva de um restaurante ou a entrega marcada da minha cozinha, onde é que este mundo vai parar. Então eu espero sim que as coisas funcionem, mas agora, na reta final (mesmo!!!) da minha obra, estou descobrindo que talvez é esperar com flexibilidade. As coisas ainda assim vão acontecer – mas talvez só no dia seguinte.

A importância da persistência

Correndo o maior risco de fazer o post mais auto-ajuda da história deste blog, eu queria falar um pouco sobre persistência. Vi essa imagem e ela não me saiu da cabeça enquanto eu não fizesse este post. Porque ela é tão importante, mas tão importante, que nem sei por onde começar. A imagem me fez pensar muito naquele post que fiz algum tempo atrás sobre os iniciantes: se a gente não começa, não tenta, não persiste, a coisa toda não tem como ir para frente.

Logo que saí do meu último emprego e resolvi virar freelancer, tive algumas sugestões de pauta ignoradas ou gentilmente recusadas até que algo desse certo. Foi bem difícil, até porque era uma volta ao jornalismo depois de alguns anos, mas em editorias completamente diferentes. E, na verdade, só começou a dar certo mesmo por causa deste blog. Olhando agora, foi rápido, em dois meses aconteceu uma revolução na minha vida, como disse uma amiga. Mas foram meses duros, de ter que lidar com a rejeição, de ter que me apoiar somente no meu desejo, na minha expectativa. No fundo, o que salvou foi a persistência: acordar todo dia cedo, continuar escrevendo, continuar postando aqui, continuar acreditando, apesar de tudo, de que algo poderia dar certo, de que algo eventualmente teria que dar certo. Uma hora dá. Mas só se a gente tentar.

Não era assim que eu deveria estar me sentindo

Sempre falo aqui nesse blog dos perigos da expectativa. Acho que um dos maiores deles é quando a gente sonha muito com um momento e quando ele chega, não é nada daquilo que a gente esperava. Quem nunca teve uma crise de “não era assim que eu devia estar me sentindo”???

É uma armadilha super fácil de cair: a gente fantasia um pouco. Então é aquela coisa de ficar sonhando com um emprego, um namorado, até mesmo um aniversário. Quando a gente conquista o que queria, a fantasia tem que ceder seu lugar à realidade e aí é que vem o choque. Há vários tipos. Pode ser uma frustração, de quem idealizou e começa a se confrontar com a realidade e às vezes ela não é tão bonita quanto os seus sonhos. Ou pode ser tudo aquilo mesmo, mas as suas condições internas mudaram e você não acha mais que aquele emprego é tudo aquilo. E tem também aquela velha história de você achar que quando você chegar (naquela empresa, naquele cargo, com aquele homem, naquela casa, com aquela bolsa, etc etc), todos os seus problemas estarão resolvidos. E você aposta tanto nisso que começa a acreditar e passa a viver por aquilo. E quando chega de fato , percebe que todo o resto continua o mesmo.

O problema da expectativa é que ela transforma o sonho em um direito adquirido, você passa quase que a contar com aquilo, mas quando as coisas não funcionam como deveriam, a frustração é gigante. Minha analista é quem vive insistindo comigo nesta questão. A melhor forma de acabar com a frustração é saber identificar quando o sonho virou expectativa e lidar com isso. Mas falar é fácil!

E então, como é que fica? Quem me dera saber. Tem horas que resolvo ser uma mestre-zen e acabar com todas as minhas expectativas. Outras horas acho que se eu fizer isso, a vida vai ficar sem graça demais. Mas tudo tem seu preço. Talvez o segredo seja lidar com tudo com um pouco mais de consciência. Talvez ajude!

O desejo de aprovação

Seja dos colegas, dos amigos ou até mesmo dos nossos pais, temos sempre uma necessidade de aprovação. Faz parte, e acho que é uma parte da nossa sociabilidade. Mas quando aquilo começa a se tornar exagerado, é algo que realmente começa a atrapalhar a vida. Para mim, sempre foi um peso que eu tenho, aos poucos, aprendido a lidar, mas gente, como é difícil. Porque é tão gostoso agradar, que é fácil se perder neste esquema, e quando a gente percebe, estamos fazendo mais pelos outros do que por nós mesmos.

Então pode ser seguir uma carreira que a gente não ama (e acha que deveria amar) ou mesmo reagir mal quando alguém que a gente ama faz uma crítica que não esperávamos (sobre nossa casa, nossas vidas, nossos amores etc). O problema é quando, na hora de fazermos escolhas importantes, começamos a pesar mais os outros do que nós mesmos. Não digo que não seja importante ceder e pensar nos outros – é essencial! Mas na hora das decisões realmente fundamentais (escolho este emprego ou aquele, me demito ou não, caso ou compro uma bicicleta), quem tem que pesar na escolha é você (e os outros possíveis envolvidos!). Ninguém mais.

Mas eu sei. Sempre tem uma voz que fica ressoando “o que meu pai vai pensar desse emprego?”, “o que meus ex-colegas vão achar quando souberem que larguei aquela posição para cuidar de abelhas?”, “minha mãe vai querer me matar quando descobri que transformei o quarto do nenê em uma sala de poker”. Não sei se algum dia essas vozes vão completamente embora. Mas estou descobrindo que elas começam a diminuir. De verdade. O que importa é que você esteja seguindo o seu caminho.

Quando resolvi neste ano mudar de carreira, resolvi ignorar um pouco estas vozes, pelo menos por algum tempo. Foi meio que a força, mas comecei a perceber que foi dando certo. E o engraçado foi, depois de algum tempo, fui descobrindo que minha maior crítica sou eu mesma - a gente tende a fantasiar um pouco as reações dos outros. E aí já entra tudo no campo da expectativa. A única coisa que podemos controlar são nossas escolhas. E essas, quem tomamos somos nós.

Sobre autenticidade e a coragem de ser quem se é

Essa foi um presente de um amigo querido, que me mandou um email hoje de manhã perguntando se eu conhecia, que tinha tudo a ver com o blog. E tem mesmo. São os TEDs da Brené Brown, pesquisadora (e storyteller!) sobre vergonha e vulnerabilidade. Primeiro eu li um artigo dela no site da CNN sobre autenticidade e fiquei super intrigada. Depois fui correndo assistir os TEDs. Segundo ela, autenticidade não é algo que temos ou deixamos de ter, e sim uma prática – uma escolha consciente de como queremos viver, uma escolha de sermos honestos com nós mesmos, de deixar nosso eu real ser visto. É aí que entra a questão da vulnerabilidade: é preciso de coragem para mostrar quem somos de verdade. Na maior parte das vezes, nosso maior crítico somos nós mesmos.

Porque quem nunca achou que não era bom o suficiente ou que era uma fraude? Engraçado, porque os posts que escrevo aqui neste blog sobre este assunto são sempre os mais populares. Comecei escrevendo sobre estes assuntos aqui no blog por estar vivendo um momento muito especial, de mudança de carreira, de dar um salto no escuro, e com isso vem uma série de inseguranças e medos e expectativas. O blog inicialmente nem ia ser sobre isso, mas foi tomando essa cara e a resposta tem sido bacana até agora.

Mas voltando a Brené, ela fala nos dois TEDs sobre toda a questão da autenticidade (e a coragem necessária para deixarmos de ser quem achamos que deveríamos ser), sobre vulnerabilidade (definida por ela não como fraqueza, mas como a medida de coragem: ao me mostrar vulnerável, eu permito que os outros me vejam como eu realmente sou), sobre vergonha (medo de não ser bom o suficiente), e outros grandes temas tão caros a todos nós. São duas palestras inspiradoras mesmo, daquelas que fazem a gente querer ser mais a gente mesmo. Imperdíveis.


Muitas desculpas e uma vida não (tão) sem graça

Porque a vida é curta e a gente não tem garantia de nada. Porque a gente sempre tem uma desculpa para não fazer o que tem vontade de fazer (é bobo, não faz sentido, o que os outros vão pensar?, não tenho tempo, semana que vem, ou qualquer outra coisa para esconder que no fundo, pode ser só medo), mas se a gente só fica naquilo que não gosta, nas obrigações, naquilo que acha que deveria estar fazendo, naquilo que acha que os outros esperam de nós, a vida vai ficando muito sem graça…